Morre Luiz Carlos Barreto, o produtor que levou o Brasil aos festivais do mundo
Produtor de Vidas Secas e Dona Flor morreu nesta quarta. Foi um dos brasileiros que mais levaram o país aos grandes festivais do mundo.
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Morreu nesta quarta-feira, aos 98 anos, Luiz Carlos Barreto, produtor, diretor e fotógrafo considerado um dos nomes centrais da história do cinema brasileiro. A informação foi confirmada por familiares ao jornal O Globo.
Conhecido no meio como Barretão, ele enfrentava problemas de saúde desde março de 2024, quando sofreu uma queda durante viagem ao Ceará, seu estado natal, onde participaria de uma homenagem.
Do fotojornalismo ao Cinema Novo
Nascido em Sobral, no Ceará, em 1928, Barreto chegou ao cinema pelo jornalismo. Trabalhou como repórter e fotojornalista antes de se tornar roteirista e diretor de fotografia — função em que assinou dois dos filmes mais importantes do país.
Foi ele quem fotografou Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Os dois títulos são pilares do Cinema Novo, movimento que reposicionou o audiovisual brasileiro nos anos 1960 e que projetou o país no circuito internacional pela primeira vez de forma consistente.
Em 1963, fundou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, que se tornaria uma das produtoras mais longevas e influentes do Brasil. Ao longo de mais de seis décadas de atividade, esteve envolvido em cerca de cinquenta filmes.
A produtora que virou passaporte
O que distingue a trajetória de Barreto não é apenas o volume. É o alcance.
Pela sua produtora passaram títulos como Garrincha, Alegria do Povo, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e Brasil Ano 2000 — este último premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim de 1969. Anos antes, O Padre e a Moça já havia disputado a competição oficial do mesmo festival.
Vieram depois Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), dirigido por seu filho Bruno Barreto e um dos maiores fenômenos de bilheteria da história do cinema nacional, Bye Bye Brasil (1979), Memórias do Cárcere (1984) e O Que É Isso, Companheiro? (1997).
A família se tornou, em si, uma instituição do cinema brasileiro: além de Bruno, o filho Fábio Barreto dirigiu O Quatrilho, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, e a mulher, Lucy Barreto, atuou como produtora ao longo de toda a trajetória da empresa.
Por que isso importa para quem olha para fora
Durante décadas, a imagem do Brasil no exterior foi construída por muito pouca gente — e uma parcela desproporcional dessa construção passou por salas de cinema em Berlim, Cannes e Veneza.
Antes do turismo em massa, antes da internet, antes de qualquer estratégia oficial de diplomacia cultural, foram filmes como Vidas Secas e Dona Flor que apresentaram o país ao público estrangeiro. Não a versão de cartão-postal: a seca do sertão, a religiosidade, o cangaço, a sensualidade, a contradição.
Quem produziu boa parte desse repertório trabalhava sem incentivo estruturado, disputando espaço em festivais onde o cinema latino-americano era exceção. Barreto foi central nessa operação.
Para o brasileiro que hoje estuda, trabalha ou vive fora, vale notar: parte do que o estrangeiro pensa saber sobre o Brasil antes de conhecer um brasileiro veio dali.
Esta matéria será atualizada conforme novas informações forem confirmadas.